Jejum: um ato de purificação

O jejum, à luz da tradição cristã, não é apenas uma prática de mortificação corporal, mas sobretudo um ato de purificação interior e de ordenação da vida ao fim último. É um ato de amor e de luta. Ele treina a vontade, purifica o coração, abre espaço para Deus. É uma escola de santidade.

1. Domínio de si

O homem decaído tende a ser escravo dos apetites e das paixões. O jejum é uma escola de liberdade, pois nos ensina a dizer “não” ao supérfluo, a fim de que possamos dizer “sim” a Deus. Quem não governa o estômago dificilmente governará a imaginação ou os impulsos da carne. O jejum é treino de liberdade. Ele nos lembra que não somos escravos do apetite: o homem manda no corpo, não o contrário. Quando digo “não” a algo legítimo, preparo-me para dizer “não” a algo ilícito.

2. Sacrifício oferecido a Deus

O jejum é uma forma concreta de oferecer a Deus algo de nós mesmos. Não se trata de mera dieta ou autocontrole, mas de ato cultual, que se torna oração corporal. O corpo participa da elevação da alma, lembrando-nos que somos unidade de corpo e espírito. Para isso, não basta ficar sem comer: é preciso entregar esse sacrifício a Deus, unindo-o à Cruz de Cristo. É como dizer: “Senhor, este pequeno sofrimento é por Ti, porque Tu és mais importante que qualquer prazer terreno.” Assim, cada renúncia se torna oração viva.

3. Intercessão pelos outros

O jejum tem valor expiatório. Cristo mesmo disse: “Certos demônios não se expulsam senão pela oração e pelo jejum” (Mt 17,21). Eleva-se assim o jejum a uma dimensão apostólica: posso jejuar em reparação pelos meus pecados e pelos dos outros, e em súplica pela conversão do mundo. O jejum é também arma de caridade. A renúncia que faço em silêncio pode abrir o céu para outra pessoa.

4. Caminho para a contemplação

O excesso de comida e de distrações torna a alma pesada. A sobriedade do corpo, pelo contrário, deixa o espírito mais leve, mais atento às coisas de Deus. Santo Tomás explica que o jejum serve para retirar os impedimentos da contemplação, reduzindo a concupiscência da carne e tornando a mente mais apta a elevar-se a Deus. Quem jejua reza melhor, escuta mais claramente a voz de Deus, e encontra gosto na oração.

5. Imitação de Cristo

Cristo jejuou quarenta dias no deserto antes de começar sua missão. Ele não precisava — mas quis nos mostrar o caminho. Se o próprio Filho de Deus se submeteu ao jejum, quem somos nós para achar que a santidade é possível sem disciplina e sacrifício? O discípulo não pode fugir do esforço quando o Mestre o abraçou primeiro.




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